Convite à empatia cidadã

Direito à cidade” implica em uma cidade que, além de oferecer os serviços básicos prometidos pelo poder público, seja um espaço democrático de integração social, com a atuação constante dos atores dando a ele as funções que desejarem. Segundo David Harvey,

é o direito de mudar a cidade mais de acordo com o desejo de nossos corações (…) A questão do tipo de cidade que desejamos é inseparável da questão do tipo de pessoas que desejamos nos tornar. A liberdade de fazer e refazer a nós mesmo e a nossas cidades dessa maneira é, sustento, um dos mais preciosos de todos os direitos humanos.”

Implica também, no mesmo espaço, a luta pelo direito à moradia e necessidades básicas humanas das quais todos indivíduos, reunidos em grupos organizados, podem e devem reivindicar, de forma pacífica, seus direitos que até então são negligenciados pelo Estado. Sofrendo diariamente com violência simbólica exercida pelo Estado (e pela sociedade), associações de moradores e movimentos sociais têm o direito, previsto na Constituição Brasileira, de se reunirem livremente para lutarem por seus direitos, de livre e espontânea vontade para fazer a seguinte pergunta: que tipo de cidade e estilo de vida queremos para nós?

 As remoções em massa do início do século passado na cidade do Rio de Janeiro em função das reformas urbanas propostas por Pereira Passos  são mais atuais do que imaginamos. Com todas as particularidades e semelhanças que podem haver com o contexto atual, atenho-me a ambas de forma superficial, porém, um tanto quanto significativa. As políticas desenvolvidas e aplicadas pelo Governo do Estado atualmente têm um fim bem lógico: os mega-eventos esportivos de 2014 e 2016. Uma tentativa explícita de remover, mascarar, criminalizar e desvirtuar comunidades existentes há décadas, afastando-as dos olohos da comunidade internacional, como as esdrúchulas “paredes acústicas da Linha vermelha, ou a remoção da Favela do Metrô, usando o absurdo discurdo do “bem coletivo” que, no fundo, visa apenas à interesses particulares – o enriquecimento de grandes construtoras, por exemplo – numa tentativa de esconder a “parte feia e suja” da cidade. Grande falácia! Basta observarmos a olho nu (e isso significa um olhar sem os pré-conceitos e pré-julgamentos) a intenção única de esconder a favela e a periferia dos civilizados olhos estrangeiros.

O reconhecimento da favela como parte integrante da cidade somente pode se dar através da luta organizada em prol do real uso público do espaço desta. Reivindicações de melhorias em infra-estrutura, segurança, saúde, educação, bens básicos que deveriam ser providos pelo Governo, paralelamente à políticas de conscientização da população acerca do preconceito e estigmas que rondam populações de periferias, aplicadas de forma incisiva e não basta inclusão do favelado fantasioso na escola particular novelística que vai atingir

"Brasil: Um país de todos"

tal fim. A real integração da favela ao asfalto (ou seria o asfalto à favela?) deve pôr fim às contradições urbanas presentes no cotidiano de todos os cidadãos, gerando igualdade e liberdade de todas as partes para que o próprio espaço público tenha sua funcionalidade exercida de forma completa – de acordo com a ação dos atores sociais e suas respectivas necessidades; que haja a mobilização dos moradores que lutam para acabar com a dicotômica “cidade partida” ao exigir que aqueles direitos prometidos constitucionalmente sejam aplicados em sua totalidade, acabando então do descolamento da lei da própria realidade. Políticas inclusivas, universalizantes, com propostas educacionais e elucidativas acerca do que nos é real, intrínseco e permanentemente em mudança, fazendo frente ao que é reproduzido diariamente em telejornais repletos de etnocentrismo e preconceitos tradicionalmente arraigados em nossa sociedade.

A questão perpassa por diversos pontos importantes que formam o diverso emaranhado que compõe uma grande cidade, ao que deveria ser compreendido como “diferente, porém igual”: nos falta a empatia frente ao descaso que a maioria da população sofre ao longo de séculos; empáticos, nos tornaríamos mais humanizados. A banalização de todo tipo de violência (inclusive aquela “às escuras” – a violência simbólica) reduz à meros seres vivos aqueles que se dizem racionais e humanos, ao não ver o distante como próximo pelo simples fato de não compartilharem os mesmos costumes, valores, crenças, poder aquisitivo, preferências políticas, local de moradia, etc.

Os diferentes tipos de socialização pelo qual todos nós passamos é legítimo em função das diferentes culturas existentes. Entretanto, o fato de não se compartilhar valores comuns não deveria significar a falta de respeito e tolerância que observamos tão claramente. Estilos de vida – seja por opção ou por necessidade – são pré-julgados tão escabrosamente que observamos a propagação de ideários fascistas que pareciam estar no fundo do mar. A desumana e anti-democrática criminalização de movimentos sociais e de uma grande parcela da população demonstra-se claramente em uma breve análise de noticiários diários. A falta de noção da necessidade deintegração da sociedade com respeito ás diferenças e liberdades individuais e de grupos é óbvia.

Então, façamos um pequeno exercício disso que chamo de “empatia”: imagine-se um camponês, que não tem um pedaço de terra para colher os frutos necessários para sua alimentação – sua sobrevivência; considere-se um pobre (e não precisa ser negro nem favelado) estudando em uma escola onde seus coleguinhas têm o básico – um tênis e uma mochila – dizendo “Nós participamos das aulas!” e o pobre excluído diz “Nóis particida das aula!” (referência ao livro adotado pelo MEC), sendo motivo de chacota geral (diga-se de passagem: saber escrever é diferente de saber pensar e falar); imagine-se um negro que, por causa de sua cor, é malquisto por toda sociedade, e andar pela rua, ou simplesmente por estar “no lugar errado, na hora errada” já é dado como criminoso e bandido; seja um gay, que quer adotar um filho com seu companheiro e não pode realizar o sonho de sua vida.

Isso tudo se chama empatia: ver no outro os mesmos sentimentos que você tem, passando por situações que você poderia passar, sofrendo injustiças, sentindo-se cerceado dos seus direitos. Opção? Definitivamente, não. Necessidade? Talvez. Nossas escolhas se dão em um mundo muito amplo, repleto de coerções invisíveis, transbordadas de pré-conceitos, inundados de injustiças, até que o barco afunde e aflore toda a podridão da nossa sociedade, completa e justificavelmente pavorosas – o produto de um mundo desigual, com espaço somenta para quem pode, segregando quem não pode, ao invés de explorar – no melhor dos sentidos – toda a riqueza e potencialidade (principalmente cultural, inovadora) daqueles que não tiveram as oportunidades que gostariam de ter. Ou, se você preferir, “com o rabo virado pra lua”.

Enquanto isso, na Terra Brasilis…

a repressão policial na Marcha da Maconha de São Paulo

Bolsonaro publica panfleto anti-gay nas escolas do Rio 

Segurança pública do Estado do Rio criminaliza a pobreza

*Piada pronta:

Favelagem se une a Anistia Internacional para perpetuar a bandalheira

Não custa nada lembrar a épica frase de um revolucionário:

Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros.”


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Dogma, ciência, e o pensamento político brasileiro

Há décadas, intelectuais brasileiros tentam explicar o pensamento político e social brasileiro através das mais diversas teorias. Mas como fugir das teoris dogmáticas, como se ater à cientificidade e à neutralidade para fazer um retrato do Brasil que seja o mais fiel possível à realidade contemporânea?

Há alguns meses atrás, o sociólogo Emir Sader, ao ser indicado pela ministra Ana Buarque de Hollanda para a direção da Fundação Casa de Rui Barbosa, propunha uma funcionalidade bem interessante para a instituição: fazer dela um recanto de intelectuais e pensadores em geral acerca da fase em que o país está atravessando, com análises dos mais diversos segmentos da humanidade. Infelizmente (?) o projeto ficou só na ideia, já que o sociólogo fez o favor de chamar nossa ministra da Cultura de “autista” e foi dispensado.

Fica a dúvida: o que seria feito na Instituição? Quais são os planos futuros para criar um lócus de discussão de cunho político, econômico e social para a formulação de teorias sobre o Brasil contemporâneo, um país que com o passar do tempo tem se tornado “um país de todos” (com “algumas várias” ressalvas a serem feitas)?

A discussão em relação ao ex-possível-futuro da Fundação nas mãos de Emir Sader podem ser equiparadas ao que foi o ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros –  nos anos 50, quando o pensamento dogmático marxista dominava a linha de pensamento dos intelectuais da época, como Werneck Sodré, Prado Jr., Oliveira Viana, dentre muitos outros. A importância de se ter um campo para discussão de tamanha relevância para o pensamento político brasileiro se mostra necessária a partir do momento em que a produção intelectual acerca da realidade brasileira carece de integração das mais diversas áreas das humanidades. Tal integração permite que a realidade cientificamente demonstrada seja analisada de forma profunda, principalmente no tocante às especificidades de nossa sociedade, uma vez que são nelas em que devemos ater nossa acuidade e interesse para tentar compreender as engrenagens que são acionadas, as alternativas possíveis e os meios pelos quais o país pode ultrapassar as deficiências que são inerentes de toda e qualquer sociedade que foi espoliada por séculos, sendo reproduzido aqui ideários que não seriam cabíveis à realidade brasileira.

Representantes da República Oligárquica

Atrelado à consciência elitista no período na Regência, se estendendo até o fim da Primeira República, nossos intelectuais insistiam em transpor para nossos trópicos ideários europeus que não se encaixavam às reais necessidades do país, reforçando o “complexo de vira-latas”, (cunhada por Nelson Rodrigues) ao expor o que o país deveria ser, e não a complexidade da realidade, com todos os nós e teias que fazem parte das relações sociais e políticas, influenciadas por uma herança colonial reproduzida e reforçada por alterações políticas que fizeram com que os mecanismos fossem adequados à determinadas mudanças, ao invés de impor os limites necessários à elite para acabar com atitudes paternalistas e patrimonialistas.

A ex-possível-futura funcionalidade da Fundação nas mãos de Emir Sader se proporia à quê? Realizar mais uma vez estudos dogmáticos sobre a realidade brasileira, ou atendo-se às metodologias para que a neutralidade inerente da cientificidade pudesse abranger de forma coesa as “reais realidades” e necessidades do povo brasileiro? Não teremos resposta quanto a isso, pelo menos não enquanto a promessa do próprio sociólogo de procurar outro espaço para tais discussões não se realize.

O que se deve evitar, no presente e no futuro, é repetir os erros do passado, ao realizar análises puramente dogmáticas que não abarcam uma análise justa do que se passa no país, que vem sofrendo alterações “nunca dantes vistas”, mas tendo em mente sempre que ainda há muito o que se fazer se tratando de direitos políticos, sociais e econômicos que a sociedade padece.

*Atualização nada atualizada: o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos assumiu a direção da Fundação Casa de Rui Barbosa, um defensor do liberalismo no país, foi indicado para o cargo peloa nossa querida ministra “autista”.

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Descaso e Desastre

A lamentável tragédia ocorrida em nossa cidade neste mês não aconteceu por acaso. Muitos irão culpar o homem e sua relação direta com a natureza, como o alto grau de poluição acarretando nas mudanças climáticas, subvertendo a ordem natural das estações do ano. Este é um fato perceptível por todos, não importa se se é morador da região serrana ou não. É algo perceptível em todo o planeta, não precisamos ser cientistas para afirmar que a ação humana em nosso meio ambiente, realizada de forma predatória há séculos, só vem piorado as condições do planeta em que vivemos. O incentivo e a reprodução de uma sociedade altamente consumista, com valores pregados no excesso e no desnecssário é a combustão para a eternização de um sistema que demonstra que tal grau de consumo e produção é o caminho para a destruição do meio ambiente.

Mas a culpa não pode recair apenas sobre a natureza – ou a ação do homem sobre ela. Temos de avaliar também a não-ação política do homem frente aos desastres naturais ou por aqueles que são fomentados pela má administração pública. Um dos principais argumentos usados para explicar a catástrofe pela qual estamos passado, como “propriedades em áreas irregulares”, deve ser desmistificado.

Cabe ao poder público executar políticas urbanas que contemplem a população de forma igualitária, com a ausência de interesses econômicos ou de pequenos grupos que colocam números acima de vidas humanas. Uma política habitacional – que há anos é negligenciada – deveria ser OBRIGAÇÃO por parte de nossa prefeitura: sua implementação e manutenção, para que o povo friburguense pudesse viver em moradias dignas, com acesso direto aos bens públicos com qualidade. O que se observa nesse momento em nossa cidade é que as regiões mais atingidas são, em sua maioria, as que mais sofreram com o descaso do Poder Público que se estende já por décadas. Morros e encostas ocupados irregularmente somente o são pelo simples fatos de i) o próprio governo não delimitar tais áreas; ii) não implementar de forma responsável políticas públicas que atendam de fato à população, seja de alta ou baixa renda;  iii) investimento em contenção de barreiras, drenagens dos rios e afluentes, assim como maiores investimentos para prevenção; iv) não atendimento das necessidades básicas da população (e porquê não da humanidade?), como o direito a uma moradia digna, na qual quem a habita é um ser humano, que contribui com seus impostos para a melhoria da cidade e acima disso, trata-se de uma vida humana.

Não vou entrar no mérito do repasse de verbas do Fundo Estadual de Conservação Ambiental por parte de nosso excelentíssimo governardor Sérgio Cabral para as Organizações Marinho (leia aquiaqui), pois este não é o principal motivo para explicar a tragédia em toda região serrana, mas é de suma importância que sejam avaliadas as denúncias de forma concisa e respeitosa, dando a devida resposta à população que está sofrendo com tamanha calamidade e, infelizmente, pelo visto, ainda sofrerá por um bom tempo, assim como a cidade toda, que ainda lamenta por suas mortes e luta para se reerguer frente ao cenário alarmante que algumas regiões se encontram.

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Em defesa da liberdade e do progresso do conhecimento na Internet Brasileira

AI-5 DIGITAL

Sinto que eu não poderia divulgar melhor petição nesse blog: disposto a confrontar todo e qualquer tipo de cerceamento à liberdade de expressão, assim como todo e qualquer tipo de controle sobre a internet (fora os que são devidamente considerados como crimes que atentam contra a dignidade humana); como já dito anteriormente aqui, um dos espaços de maior diversidade que nós já tivemos podemos experimentar, assinei a seguinte petição contra o controle da distribuição de informação e conhecimento que somente a Internet pode propiciar.

Se você não quer correr o risco de perder toda a liberdade que a Internet te proporciona, assine aqui a petição.

“ESTA PETIÇÂO AGORA É DIRECIONADA A CAMARA DOS DEPUTADOS – Na noite de 09/07 o Senado aprovou o projeto de forma velada, pegando a todos nós de surpresa. Desta forma temos de dar uma resposta á altura coletando o máximo de assinaturas possível dentre outras ações que estão sendo desenvolvidas. Não podemos desistir de exercer nosso direito á democracia.

TO: SENADO BRASILEIRO

EM DEFESA DA LIBERDADE E DO PROGRESSO DO CONHECIMENTO NA INTERNET BRASILEIRA

A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX. Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais. A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.

A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet. O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural. A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana.

E nós brasileiros sabemos muito bem disso. A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatikng): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês. E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, “Educação e Carreira”, ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil. Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência.

Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral. O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos. Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância.

Se, como diz o projeto de lei, é crime “obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida”, não podemos mais fazer nada na rede. O simples ato de acessar um site já seria um crime por “cópia sem pedir autorização” na memória “viva” (RAM) temporária do computador. Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando. Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime. O projeto, se aprovado, colocaria a prática do “blogging” na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém!

Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao “transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado”, “sem pedir a autorização dos autores” (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los). Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos.

O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos… Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum “dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular”?

Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras. Defendemos a necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante. E a Internet é um importante instrumento nesse sentido. Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime. Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI.

Por estas razões nós, abaixo assinados, pesquisadores e professores universitários apelamos aos congressistas brasileiros que rejeitem o projeto Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo ao projeto de Lei da Câmara 89/2003, e Projetos de Lei do Senado n. 137/2000, e n. 76/2000, pois atenta contra a liberdade, a criatividade, a privacidade e a disseminação de conhecimento na Internet brasileira.

André Lemos, Prof. Associado da Faculdade de Comunicação da UFBA, Pesquisador 1 do CNPq.

Sérgio Amadeu da Silveira, Prof. do Mestrado da Faculdade Cásper Líbero, ativista do software livre.

João Carlos Rebello Caribé, Publicitário e Consultor de Negócios em Midias Sociais

Sincerely,

The Undersigned


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“O poder tem medo da internet”

Retirado do jornal argentino espanhol El País, o quarto cientista social mais citado no período de 2000-2006, e o acadêmico mais citado na área de comunicação no mesmo período, Castells trata da inclusão e a exclusão digital, do controle da Internet, diz que a sociedade tem medo do novo e sentencia: quem busca autonomia usa mais a Internet.

ENTREVISTA COM MANUEL CASTELLS

MANUEL CASTELLS

El País – Esta pesquisa mostra que a Internet não favorece o isolamento, como muitos acreditam, mas que as pessoas que mais usam o chat são as mais sociais.

Castells – Sim. Para nós não é nenhuma surpresa. A surpresa é que esse resultado tenho sido uma surpresa. Há pelo menos 15 estudos importantes no mundo que dão esse mesmo resultado.
El País – Por que acredita que a idéia contrária se estendeu com tanto sucesso?

Castells – Os meios de comunicação tem muito a ver. Todos sabermos que as más notícias são mais notícia. Você utiliza a Internet e seus filhos, também. Mas é mais interessante acreditar que ela está cheia de terroristas, de pornografia… Pensar que é um fator de alienação é mais interessante do quedizer: A Internet é a extensão da sua vida. Se você é sociável, será mais sociável; se não é, a Internet lhe ajudará um pouquinho, mas não muito. Os meios são um certo modo de expressão do que pensa a sociedade: a questão é por que a sociedade pensa isso.

El País – Porque tem medo do novo?

Castells – Exatamente. Mas medo de quem? A velha sociedade tem medo da nova, os pais dos seus filhos, as pessoas que têm o poder ancorado num mundo tecnológico, social e culturalmente antigo do poder que lhes abalroa, que não entendem nem controlam e que percebem como um perigo. E no fundo é mesmo um perigo. Porque a Internete é um instrumento de liberdade e de autonomia, quando o poder sempre foi baseado no controle das pessoas por meio do controle da informação e da comunicação. Mas isto acaba. Porque a Internet não pode ser controlada.

El País – Vivemos numa sociedade onde a gestão da visibilidade na esfera pública midiática, como a define John J. Thompson, se converteu na principal preocupação de qualquer instituição, empresa ou organismo. Mas o controle da imagem pública requer meios que sejam controláveis, e se a Internet não é …

Castells – Não é, e isso explica porque os poderes tem medo da Internet. Estive em várias comissões de assessoria de governos e instituições internacionais nos últimos 15 anos, e a primeira pergunta que os governos sempre fazem é: como podemos controlar a Internet? A resposta é sempre a mesma: não se pode. Pode se vigiar, mas não controlar.

El País – Se a Internet é tão determinante da vida social e econômica, seu acesso pode ser o principal fator de exclusão?

Castells – Não. O mais importante segue sendo o acesso ao trabalho e à carreira profissional e, ainda anteriormente, ao nível educativo, porque sem educação, a tecnologia não serve para nada. Na Espanha, a chamada exclusão digital é por questão de idade. Os dados estão muito claros: entre os maiores de 55 anos, somente 9% são usuários da Internete, mas entre os menores de 25 anos, são 90%.

El País – É, portanto, uma questão de tempo?

Castells – Quando minha geração desaparecer, não haverá mais esta exclusão digital no que diz respeito ao acesso. Mas na sociedade da Internet, o complicado não é saber navegar, mas saber onde ir, onde buscar o que se quer encontrar e o que fazer com o que se encontra. Isso requer educação. Na realidade, a Internet amplifica a velha exclusão social da história, que é o nível de educação. O fato de que 555 dos adultos não tenha completado, na Espanha, a educação secundária, essa é a verdadeira exclusão digital.

El País – Nesta sociedade que tende a ser tão líquida, na expressão de Zygmunt Bauman, em que tudo muda constantemente  e que é cada vez mais globalizada, aumenta a sensação de insegurança, de que o mundo se move debaixo dos nossos pés?

Castells – Há uma nova sociedade que eu busquei definir teoricamente com o conceito de sociedade-rede e que não está distante da que define Bauman. Eu creio que, mais que líquida, é uma sociedade em que tudo está articulado de forma transversal e onde menos controle das instituições tradicionais.

El País – Em que sentido?

Castells – Estende-se a idéia de que as instituições centrais da sociedade, o Estado e a família tradicional, já não funcionam. Então, o chão se move sob os nossos pés. Primeiro, as pessoas pensam que seus governos não as representam e que não são confiáveis. Começamos mal. Segundo, elas pensam que o mercado é bom para os que ganham e mau para os que perdem. Como a maioria perde, há uma desconfiança para o que a lógica pura e dura do mercado pode proporcionar às pessoas. Terceiro, estamos globalizados; isso significa que nosso dinheiro está no fluxo global que não controlamos, que a população está submetida ás pressões migratórias muito fortes, de modo que cada vez mais é difícil encerrar as pessoas numa cultura ou nas fronteiras nacionais.

El País – Qual é o papel da Inernet neste processo?

Castells – Por um lado, ao nos permitir aceder à toda informação, aumenta a incerteza, mas ao mesmo tempo é um instrumento chave para a autonomia das pessoas, e isto é algo que demonstramos pela primeira vez na nossa pesquisa. Quanto mais autônoma é uma pessoa, mas ela utiliza a Internet. Em nosso trabalho definimos seis dimensões da autonomia e comprovamos que quando uma pessoa tem um forte projeto de autonomia, em qualquer uma dessas dimensões, ela utiliza Internet com muito mais freqüência e intensidade. E o uso da Internet reforça, por sua vez, a sua autonomia. Mas, claro, quanto mais uma pessoa controla a sua vida, menos ela se fia das instituições.

El País – E maior pode ser sua frustração pela distância que há entre as possibilidades teóricas de participação e as que exerce na prática, que se limitam a votar a cada quatro anos?

Castells – Sim, há um descompasso entre a capacidade tecnológica e a cultura política. Muitos municípios colocaram Wi-Fi de acesso, mas se ao mesmo não são capazes de articular um sistema de participação, servem para que as pessoas organizem melhor as suas próprias redes, mas não para participar na vida política. O problema é que o sistema político não está aberto à participação, ao diálogo constante com os cidadãos, à cultura da autonomia e, portanto, estas tecnologias contribuem para distanciar ainda mais a política da cidadania.

http://www.elpais.com/articulo/reportajes/poder/tiene/miedo/Internet/elpepusocdmg/20080106elpdmgrep_5/Tes

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Eleições, xenofobia e o Nordeste

Infelizmente minha inspiração dessa vez não veio de meus devaneios, mas de uma consequência da tão-esperada derrocada demotucana nessas eleições. No Twitter, como a maioria já deve estar ciente, um certo grupo social, de um país que deveria considerar-se como uma unidade territorial, que forma um povo só, com os mesmos direitos e os mesmos deveres, expressou seu preconceito contra os nordestinos, atribuindo falsamente a vitória da candidata do PT, Dilma Rousseff, à sua população.

Coincidentemente, estou lendo “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Acho que esse seria o melhor momento de transcrever uma parte que eu já havia escolhido:

“O Nordeste brasileiro é, na atualidade, uma das regiões mais subdesenvolvidas do hemisfério ocidental. Gigantesco campo de concentração para trinta mulhões de pessoas, padece hoje a herança da monocultura do açúcar. De suas terras nasceu o negócio mais lucrativo da economia agrícola colonial na América Latina. Atualmente, menos da quinta parte da zona úmida de Pernambuco está dedicada à cultura da cana-de-açúcar, e o resto não se usa para nada: os donos dos grandes engenhos centrais, que são os maiores plantadores de cana, dão-se a este luxo do desperdício, mantendo improdutivos seus vastos latifúndios. Não é nas zonas áridas e semi-áridas do interior nordestino onde as pessoas comem pior, como equivocadamente se crê. O sertão, deserto de pedra e arbustos ralos, vegetação escassa, padece fomes periódicas: o sol inclemente da seca abate-se sobre a terra e a reduz a uma paisagem lunar; obriga aos homens o êxodo e semeia cruzes às margens dos caminhos. Porém é no litoral úmido onde se padece a fome endêmica. Ali onde mais opulenta é a opulência, mais miserável se forma, terra de contradições, a miséria; a região eleita pela natureza para produzir todos os alimentos, nega-os todos: a faixa costeira ainda conhecida, ironia do vocabulário, como zona da mata, em homenagem ao passado remoto e aos míseros vestígios da floresta sobrevive aos séculos do açúcar”.

A expressão xenófoba que apareceu nos Trending Topics deixa claro o preconceito e a ignorância da elite brasileira que usa (e sempre usou) os nordestinos (e todos que são da periferia) apenas para atingir seus fins, usando-os e depois deixando-os à mercê de um sistema que insiste em reproduzir a lógica da segregação e do preconceito, tantas vezes mascarado e tantas outras, escarrado. Foi assim com São Paulo, foi assim na extração da borracha, foi assim com a construção de Brasília – foi assim em praticamente a totalidade da história do nosso país.

Vai ser assim até quando?

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Pensando a inclusão digital

Inclusão digital na base da educação

Como já expus anteriormente, a inclusão digital deveria andar de mãos dadas com a educação. São nas bases da formação das categorizações que ao longo da vida nos são impostas que lhes damos os seus devidos significados, expressando-os simbolicamente das mais variadas formas. Um meio de se adequar a construção subjetiva dos valores que são formados na base da educação podem ser ampliados através da rede. Mas para que os próprios alunos tenham tal acesso é necessário uma profissionalização dos seus mais importantes transmissores de conhecimento – os professores – devidamente valorizados e atualizados com uma nova forma de interação entre crianças e jovens que, cada vez mais, trazem pro universo escolar toda a cultura incipiente que a tecnologia lhe permite – ou até onde lhe é possível usufruir dessas novas tecnologias.

Não só como um problema educativo, pode-se ver também uma problemática cultural, que para atingir tal nível, há de se incluir no cotidiano da população a possibilidade do acesso e da exploração das ferramentas que a inclusão digital propicia; acesso ao meio essencial para se conectar com toda rede o computador, e além dele, o provedor que vai assisti-lo, de maneira acessível para toda população. As futuras gerações podem trazer (e já estão trazendo) novos costumes à sociedade capitalista contemporânea com as possibilidades de interação que as redes sociais propiciam  entre seus iguais e até mesmo com aqueles que são considerados “diferentes”, permitindo a sensibilização com o diferente e instigando o senso crítico a ser trabalhado de forma que se possa observar de forma relativa a posição que lhe seria contrária. A gama de possibilidades que a internet pode trazer para a população é abundante, e só é possível fazer uso dela com a inserção dessa cultura em erupção no cotidiano do futuro das nossas sociedades – crianças e jovens que estão em plena formação intelectual, no espaço onde históricamente o conhecimento é desenvolvido e debatido.

A questão da inclusão digital pode ser encarada como uma questão de up-to-date, manter-se atualizado frente às novas tecnologias que são desenvolvidas e implementadas ao longo do tempo na vida das pessoas. Encará-las como um desafio a ser enfrentado é aceitar tais mudanças, e  é necessariamente ter de conhecer as novas formas de relação que as pessoas criam em um mundo que, cada vez mais, as fronteiras são diminuídas. A grande questão é: como tratar tal encolhimento sem estender mais ainda as desigualdades sociais que estão no âmbito da inclusão digital.

Educação para todos não deve ser educação para quem pode.

Leia mais: Alfabetização audiovisual
http://www.culturaemercado.com.br/headline/alfabetizacao-audiovisual/

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