Inclusão digital e democracia

Heliópolis, periferia de São Paulo

Ontem assisti a um documentário na TV Brasil chamado “Periferia.com“. Ele tratava do aumento do número de lan houses em Heliópolis, um dos bairros mais pobres de São Paulo. Discutia-se também o que seria a “inclusão digital”, com opiniões de moradores, rappers, radialistas da região e profissionais da área.

Lan house montada em uma garagem, em Heliópolis

Para quem tem uma opinião formada no assunto, mesmo com os diferentes pontos de vista que os entrevistados demonstram, fica claro os enormes benefícios desse tipo de empreendimento tanto para aqueles que o constroem como para aqueles que fazem usufruto dele. Segundo um morador, é o empreendimento que mais aparece, ao lado de bares e Igrejas Protestantes. A discussão travada no tocante à inclusão digital fica clara: não há inclusão digital no país, muito menos na periferia. Inclusão é também educação. A cultura da troca da tv pelo computador-internet ainda é embrionário no Brasil. Os altos custos dos computadores até pouco tempo – em 2008, se vendeu mais computadores do que TV’s – e o alto preço de uma internet de qualidade – este último, em especial – dificultam o acesso daqueles que têm seu dinheiro contado por mês, centavo a centavo. Nas escolas, a mesma coisa: serviço caro e de baixa qualidade são o que pautam as empresas de banda larga no Brasil, em sua maioria, com preços exorbitantes que só reforçam a desigualdade entre aqueles que podem obter tal serviço e os que não podem.

Nas lan houses, de acordo com o documentário, a maioria das crianças (acima de 6 anos de idade!) que frequentam esses locais são em sua grande maioria para os jogos online. Poucos usam para pesquisa e leitura, ou simplesmente como uma forma de fugir do que é repetido diariamente nos grandes telejornais, que pouco diferem quanto aos seus pontos de vista. Isso porquê os grandes meios de comunicação em massa são formados por grandes empresários – e poucos. Logo, há um interesse dos mesmos continuarem a aplicar seu método arcaico de noticiar o mundo, que só faz com que a população mantenha-se acostumada a receber todas as informações mastigadas, com pouco uso do senso crítico. “Afinal de contas, foi noticiado mais ou menos a mesma coisa ontem, não?”

Impedem a divulgação e a implementação de um novo conceito de se informar que somente a internet com um serviço de qualidade pode propiciar. A internet é o locus da diversidade e da variedade de opiniões, pontos de vista, tudo em função da possibilidade de se poder, com o costume, comparar notícias, ler diferentes comentários, ter contato com as opiniões opostas, tudo com seu devido respeito. Assim se forma o que poderia se chamar de “mapas mentais”. Eles são construídos de acordo com o que se vivencia, de acordo com as oportunidades que se têm em absorver o que é diferente do que se está acostumado. A tolerância e o relativismo, assim, são desenvolvidos. Um tipo de sensibilidade é aguçada, que até então esteve inerte, justamente por não ter sido contrariada e estimulada. Questões de cidadania são colocadas em jogo.

Um dos entrevistados teve a ousadia em colocar no mesmo patamar drogas e inclusão digital. Esse ponto de vista extremamente absurdo reflete que a maioria das pessoas não têm consciência de que o acesso à internet e à variedade são formas especiais de se fugir da criminalidade, da alienação, da falta de interesse e de crítica aos padrões hegemônicos que nos são vomitados todos os dias.

Outro entrevistado, da rádio comunitária, baixa as músicas na hora – o que seus ouvintes pedirem, através do MSN – e toca o som com dedicatória e tudo. Hip hop argentino é o que ele escolheu em um dos diversos sites de compartilhamento de música. Quando a Rede Globo ou qualquer outro canal aberto iria escolher tal música para colocar em uma de suas novelas ou vinhetas? Logo, quando um morador de uma comunidade carente teria acesso gratuito a uma cultura alternativa e diferenciada para promover seu senso crítico?

A internet por si só não resolveria tal problema, seja ela barata ou cara. A internet por si só não vai instigar que o usuário procure, ouça, leia, veja, discuta e reflita. Mas a inclusão digital sim, abre e dissemina as janelas de possibilidades que a Internet têm e tudo o que ela têm a oferecer a qualquer pessoa.

O que temos que observar é que a internet COM inclusão social e digital é um espaço de cidadania e participação popular. As redes sociais são noticiadas nos telejornais como sites para entretenimento e diversão, geralmente mostrado com exemplos ridicularizados, como as piadas que fizeram sobre o Plínio de Arruda após o debate da Band – e não o número de novos seguidores do mesmo – ou o Cala Boca Galvão, noticiado como outra piada dos internautas – e não a manifestação de descontentamento com o narrador e sua pomposa emissora.

A partir do momento em que os meios de comunicação – e os políticos, inclusive – derem o devido valor à internet e em especial, às redes sociais, não tratando-as como meros espaços de divulgação de suas [des]informações e sim como um espaço legítimo de manifestação popular, a democracia só tem a ganhar. Tratar a inclusão digital com respeito (e aplicá-la, é claro), e acima de tudo, os cidadãos, tornando-a um Direito Humano, garantido pela Constituição, assim como fez a Finlândia, permite a participação popular com engajamento e crítica – tudo o que os grandes meios de comunicação não querem.

Vejamos como vai se desenrolar a novela do PNBL – Plano Nacional de Banda Larga – que pode permitir a universalização do acesso e enfim contribuir para a formação mais capacitada da nossa população de forma justa e igualitária através da garantia do espaço que pode vir a ser o mais democrático que o homem já teve contato.

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Sobre Conrado

Cientista social, aspirante a sociólogo. Defensor da livre circulação de conhecimento e informação.
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