Eleições, xenofobia e o Nordeste

Infelizmente minha inspiração dessa vez não veio de meus devaneios, mas de uma consequência da tão-esperada derrocada demotucana nessas eleições. No Twitter, como a maioria já deve estar ciente, um certo grupo social, de um país que deveria considerar-se como uma unidade territorial, que forma um povo só, com os mesmos direitos e os mesmos deveres, expressou seu preconceito contra os nordestinos, atribuindo falsamente a vitória da candidata do PT, Dilma Rousseff, à sua população.

Coincidentemente, estou lendo “As Veias Abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Acho que esse seria o melhor momento de transcrever uma parte que eu já havia escolhido:

“O Nordeste brasileiro é, na atualidade, uma das regiões mais subdesenvolvidas do hemisfério ocidental. Gigantesco campo de concentração para trinta mulhões de pessoas, padece hoje a herança da monocultura do açúcar. De suas terras nasceu o negócio mais lucrativo da economia agrícola colonial na América Latina. Atualmente, menos da quinta parte da zona úmida de Pernambuco está dedicada à cultura da cana-de-açúcar, e o resto não se usa para nada: os donos dos grandes engenhos centrais, que são os maiores plantadores de cana, dão-se a este luxo do desperdício, mantendo improdutivos seus vastos latifúndios. Não é nas zonas áridas e semi-áridas do interior nordestino onde as pessoas comem pior, como equivocadamente se crê. O sertão, deserto de pedra e arbustos ralos, vegetação escassa, padece fomes periódicas: o sol inclemente da seca abate-se sobre a terra e a reduz a uma paisagem lunar; obriga aos homens o êxodo e semeia cruzes às margens dos caminhos. Porém é no litoral úmido onde se padece a fome endêmica. Ali onde mais opulenta é a opulência, mais miserável se forma, terra de contradições, a miséria; a região eleita pela natureza para produzir todos os alimentos, nega-os todos: a faixa costeira ainda conhecida, ironia do vocabulário, como zona da mata, em homenagem ao passado remoto e aos míseros vestígios da floresta sobrevive aos séculos do açúcar”.

A expressão xenófoba que apareceu nos Trending Topics deixa claro o preconceito e a ignorância da elite brasileira que usa (e sempre usou) os nordestinos (e todos que são da periferia) apenas para atingir seus fins, usando-os e depois deixando-os à mercê de um sistema que insiste em reproduzir a lógica da segregação e do preconceito, tantas vezes mascarado e tantas outras, escarrado. Foi assim com São Paulo, foi assim na extração da borracha, foi assim com a construção de Brasília – foi assim em praticamente a totalidade da história do nosso país.

Vai ser assim até quando?

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Sobre Conrado

Cientista social, aspirante a sociólogo. Defensor da livre circulação de conhecimento e informação.
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