Dogma, ciência, e o pensamento político brasileiro

Há décadas, intelectuais brasileiros tentam explicar o pensamento político e social brasileiro através das mais diversas teorias. Mas como fugir das teoris dogmáticas, como se ater à cientificidade e à neutralidade para fazer um retrato do Brasil que seja o mais fiel possível à realidade contemporânea?

Há alguns meses atrás, o sociólogo Emir Sader, ao ser indicado pela ministra Ana Buarque de Hollanda para a direção da Fundação Casa de Rui Barbosa, propunha uma funcionalidade bem interessante para a instituição: fazer dela um recanto de intelectuais e pensadores em geral acerca da fase em que o país está atravessando, com análises dos mais diversos segmentos da humanidade. Infelizmente (?) o projeto ficou só na ideia, já que o sociólogo fez o favor de chamar nossa ministra da Cultura de “autista” e foi dispensado.

Fica a dúvida: o que seria feito na Instituição? Quais são os planos futuros para criar um lócus de discussão de cunho político, econômico e social para a formulação de teorias sobre o Brasil contemporâneo, um país que com o passar do tempo tem se tornado “um país de todos” (com “algumas várias” ressalvas a serem feitas)?

A discussão em relação ao ex-possível-futuro da Fundação nas mãos de Emir Sader podem ser equiparadas ao que foi o ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros –  nos anos 50, quando o pensamento dogmático marxista dominava a linha de pensamento dos intelectuais da época, como Werneck Sodré, Prado Jr., Oliveira Viana, dentre muitos outros. A importância de se ter um campo para discussão de tamanha relevância para o pensamento político brasileiro se mostra necessária a partir do momento em que a produção intelectual acerca da realidade brasileira carece de integração das mais diversas áreas das humanidades. Tal integração permite que a realidade cientificamente demonstrada seja analisada de forma profunda, principalmente no tocante às especificidades de nossa sociedade, uma vez que são nelas em que devemos ater nossa acuidade e interesse para tentar compreender as engrenagens que são acionadas, as alternativas possíveis e os meios pelos quais o país pode ultrapassar as deficiências que são inerentes de toda e qualquer sociedade que foi espoliada por séculos, sendo reproduzido aqui ideários que não seriam cabíveis à realidade brasileira.

Representantes da República Oligárquica

Atrelado à consciência elitista no período na Regência, se estendendo até o fim da Primeira República, nossos intelectuais insistiam em transpor para nossos trópicos ideários europeus que não se encaixavam às reais necessidades do país, reforçando o “complexo de vira-latas”, (cunhada por Nelson Rodrigues) ao expor o que o país deveria ser, e não a complexidade da realidade, com todos os nós e teias que fazem parte das relações sociais e políticas, influenciadas por uma herança colonial reproduzida e reforçada por alterações políticas que fizeram com que os mecanismos fossem adequados à determinadas mudanças, ao invés de impor os limites necessários à elite para acabar com atitudes paternalistas e patrimonialistas.

A ex-possível-futura funcionalidade da Fundação nas mãos de Emir Sader se proporia à quê? Realizar mais uma vez estudos dogmáticos sobre a realidade brasileira, ou atendo-se às metodologias para que a neutralidade inerente da cientificidade pudesse abranger de forma coesa as “reais realidades” e necessidades do povo brasileiro? Não teremos resposta quanto a isso, pelo menos não enquanto a promessa do próprio sociólogo de procurar outro espaço para tais discussões não se realize.

O que se deve evitar, no presente e no futuro, é repetir os erros do passado, ao realizar análises puramente dogmáticas que não abarcam uma análise justa do que se passa no país, que vem sofrendo alterações “nunca dantes vistas”, mas tendo em mente sempre que ainda há muito o que se fazer se tratando de direitos políticos, sociais e econômicos que a sociedade padece.

*Atualização nada atualizada: o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos assumiu a direção da Fundação Casa de Rui Barbosa, um defensor do liberalismo no país, foi indicado para o cargo peloa nossa querida ministra “autista”.

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Sobre Conrado

Cientista social, aspirante a sociólogo. Defensor da livre circulação de conhecimento e informação.
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