Convite à empatia cidadã

Direito à cidade” implica em uma cidade que, além de oferecer os serviços básicos prometidos pelo poder público, seja um espaço democrático de integração social, com a atuação constante dos atores dando a ele as funções que desejarem. Segundo David Harvey,

é o direito de mudar a cidade mais de acordo com o desejo de nossos corações (…) A questão do tipo de cidade que desejamos é inseparável da questão do tipo de pessoas que desejamos nos tornar. A liberdade de fazer e refazer a nós mesmo e a nossas cidades dessa maneira é, sustento, um dos mais preciosos de todos os direitos humanos.”

Implica também, no mesmo espaço, a luta pelo direito à moradia e necessidades básicas humanas das quais todos indivíduos, reunidos em grupos organizados, podem e devem reivindicar, de forma pacífica, seus direitos que até então são negligenciados pelo Estado. Sofrendo diariamente com violência simbólica exercida pelo Estado (e pela sociedade), associações de moradores e movimentos sociais têm o direito, previsto na Constituição Brasileira, de se reunirem livremente para lutarem por seus direitos, de livre e espontânea vontade para fazer a seguinte pergunta: que tipo de cidade e estilo de vida queremos para nós?

 As remoções em massa do início do século passado na cidade do Rio de Janeiro em função das reformas urbanas propostas por Pereira Passos  são mais atuais do que imaginamos. Com todas as particularidades e semelhanças que podem haver com o contexto atual, atenho-me a ambas de forma superficial, porém, um tanto quanto significativa. As políticas desenvolvidas e aplicadas pelo Governo do Estado atualmente têm um fim bem lógico: os mega-eventos esportivos de 2014 e 2016. Uma tentativa explícita de remover, mascarar, criminalizar e desvirtuar comunidades existentes há décadas, afastando-as dos olohos da comunidade internacional, como as esdrúchulas “paredes acústicas da Linha vermelha, ou a remoção da Favela do Metrô, usando o absurdo discurdo do “bem coletivo” que, no fundo, visa apenas à interesses particulares – o enriquecimento de grandes construtoras, por exemplo – numa tentativa de esconder a “parte feia e suja” da cidade. Grande falácia! Basta observarmos a olho nu (e isso significa um olhar sem os pré-conceitos e pré-julgamentos) a intenção única de esconder a favela e a periferia dos civilizados olhos estrangeiros.

O reconhecimento da favela como parte integrante da cidade somente pode se dar através da luta organizada em prol do real uso público do espaço desta. Reivindicações de melhorias em infra-estrutura, segurança, saúde, educação, bens básicos que deveriam ser providos pelo Governo, paralelamente à políticas de conscientização da população acerca do preconceito e estigmas que rondam populações de periferias, aplicadas de forma incisiva e não basta inclusão do favelado fantasioso na escola particular novelística que vai atingir

"Brasil: Um país de todos"

tal fim. A real integração da favela ao asfalto (ou seria o asfalto à favela?) deve pôr fim às contradições urbanas presentes no cotidiano de todos os cidadãos, gerando igualdade e liberdade de todas as partes para que o próprio espaço público tenha sua funcionalidade exercida de forma completa – de acordo com a ação dos atores sociais e suas respectivas necessidades; que haja a mobilização dos moradores que lutam para acabar com a dicotômica “cidade partida” ao exigir que aqueles direitos prometidos constitucionalmente sejam aplicados em sua totalidade, acabando então do descolamento da lei da própria realidade. Políticas inclusivas, universalizantes, com propostas educacionais e elucidativas acerca do que nos é real, intrínseco e permanentemente em mudança, fazendo frente ao que é reproduzido diariamente em telejornais repletos de etnocentrismo e preconceitos tradicionalmente arraigados em nossa sociedade.

A questão perpassa por diversos pontos importantes que formam o diverso emaranhado que compõe uma grande cidade, ao que deveria ser compreendido como “diferente, porém igual”: nos falta a empatia frente ao descaso que a maioria da população sofre ao longo de séculos; empáticos, nos tornaríamos mais humanizados. A banalização de todo tipo de violência (inclusive aquela “às escuras” – a violência simbólica) reduz à meros seres vivos aqueles que se dizem racionais e humanos, ao não ver o distante como próximo pelo simples fato de não compartilharem os mesmos costumes, valores, crenças, poder aquisitivo, preferências políticas, local de moradia, etc.

Os diferentes tipos de socialização pelo qual todos nós passamos é legítimo em função das diferentes culturas existentes. Entretanto, o fato de não se compartilhar valores comuns não deveria significar a falta de respeito e tolerância que observamos tão claramente. Estilos de vida – seja por opção ou por necessidade – são pré-julgados tão escabrosamente que observamos a propagação de ideários fascistas que pareciam estar no fundo do mar. A desumana e anti-democrática criminalização de movimentos sociais e de uma grande parcela da população demonstra-se claramente em uma breve análise de noticiários diários. A falta de noção da necessidade deintegração da sociedade com respeito ás diferenças e liberdades individuais e de grupos é óbvia.

Então, façamos um pequeno exercício disso que chamo de “empatia”: imagine-se um camponês, que não tem um pedaço de terra para colher os frutos necessários para sua alimentação – sua sobrevivência; considere-se um pobre (e não precisa ser negro nem favelado) estudando em uma escola onde seus coleguinhas têm o básico – um tênis e uma mochila – dizendo “Nós participamos das aulas!” e o pobre excluído diz “Nóis particida das aula!” (referência ao livro adotado pelo MEC), sendo motivo de chacota geral (diga-se de passagem: saber escrever é diferente de saber pensar e falar); imagine-se um negro que, por causa de sua cor, é malquisto por toda sociedade, e andar pela rua, ou simplesmente por estar “no lugar errado, na hora errada” já é dado como criminoso e bandido; seja um gay, que quer adotar um filho com seu companheiro e não pode realizar o sonho de sua vida.

Isso tudo se chama empatia: ver no outro os mesmos sentimentos que você tem, passando por situações que você poderia passar, sofrendo injustiças, sentindo-se cerceado dos seus direitos. Opção? Definitivamente, não. Necessidade? Talvez. Nossas escolhas se dão em um mundo muito amplo, repleto de coerções invisíveis, transbordadas de pré-conceitos, inundados de injustiças, até que o barco afunde e aflore toda a podridão da nossa sociedade, completa e justificavelmente pavorosas – o produto de um mundo desigual, com espaço somenta para quem pode, segregando quem não pode, ao invés de explorar – no melhor dos sentidos – toda a riqueza e potencialidade (principalmente cultural, inovadora) daqueles que não tiveram as oportunidades que gostariam de ter. Ou, se você preferir, “com o rabo virado pra lua”.

Enquanto isso, na Terra Brasilis…

a repressão policial na Marcha da Maconha de São Paulo

Bolsonaro publica panfleto anti-gay nas escolas do Rio 

Segurança pública do Estado do Rio criminaliza a pobreza

*Piada pronta:

Favelagem se une a Anistia Internacional para perpetuar a bandalheira

Não custa nada lembrar a épica frase de um revolucionário:

Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros.”


Anúncios

Sobre Conrado

Cientista social, aspirante a sociólogo. Defensor da livre circulação de conhecimento e informação.
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Convite à empatia cidadã

  1. Lívia disse:

    Conca! Parabéns pelo texto… lindo!

    É incrível como o Rio é sempre vítima dos maus políticos que sempre buscam deixar sua marca na cidade sem se preocupar com quem ali está…
    E agora isto está se repetindo com uma força enorme, junto com o poder dos grandes empresários e da comunidade internacional…
    Essa história toda de Olimpíadas e Copa está me deixando indignada com essas ações arbritárias onde o direito à cidade está se resumindo aos que podem consumir a cidade…

    vendo você escrever sobre essas reformas lembrei-me de um livro que acho que vc ia gostar: “Evolução Urbana do Rio de Janeiro” do Maurício Abreu. Ótimo livro, bem ilustrado e acessível (acho que R$ 30) é do IPP.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s